terça-feira, 16 de março de 2021

Filosofia botânica para matarruanos


 




    Gosto de árvores, em especial das que não são minhas e particularmente das que não são de ninguém. Gosto de árvores silvestres, delas não espero nada. Podem produzir frutos pequenos ou ácidos, podem ser mesmo intragáveis ao meu paladar e servirem apenas para as famintas aves se alimentarem. Podem até ter espinhos nos ramos, como o limoeiro bravo, e não permitirem sequer que eu me encoste a elas. É por tudo isto que gosto delas, só por serem. Já as árvores do pomar, estão sujeitas a inúmeras exigências. Têm de produzir frutos doces, grandes e em abundância e quando elas produzem mais do que o dono consegue colher, ele trata de colocar junto delas um sósia de colmo para invejosamente evitar que as aves se alimentem do frutos destas. E caso as árvores não correspondam as expectativas, rapidamente ocorre ao agricultor a ideia de as enxertar, de forma que destas só reste a raíz que se vê forçada a alimentar uma copa que não é a sua a produzir frutos que não são os seus. Uma árvore enxertada não vai viver muitos anos. Nada vive muito tempo a ser o que não é. Já a árvore brava pode até não ser grande coisa, mas vive por séculos.

Texto: Samuel 
Foto: Daniela

Sem comentários:

Enviar um comentário